terça-feira, 14 de setembro de 2010

Mineirice com poesia


Minas de Adélia Prado, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade...
Ler esses poetas é pegar o trem e atravessar as montanhas em busca de um horizonte. Horizonte perdido na poesia, na simplicidade, na mineirice. 

Selecionei algumas frases :


Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade. (Carlos Drummond de Andrade)

A minha vontade é forte, mas a minha disposição de obedecer-lhe é fraca. (Carlos Drummond de Andrade)

Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo.
(Carlos Drummond de Andrade)

O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.
(Carlos Drummond de Andrade)

"O sonho encheu a noite.
Extravasou pro meu dia
Encheu minha vida...
E é dele que eu vou viver.
Porque sonho não morre"
(Adélia Prado)

"Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento" (Adélia Prado)

“Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica, mas atravessa a noite, a madrugada, o dia, atravessou minha vida, virou só sentimento.”(Adélia Prado)


"Acho que o espírito da gente é cavalo que escolhe estrada: quando ruma para tristeza e morte, vai não vendo o que é bonito e bom". Grande Sertão: Veredas (Guimarães Rosa)


Sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o lugar. Viver é muito perigoso...(Guimarães Rosa)

O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem...(Guimarães Rosa)

Ah, acho que não queria mesmo nada, de tanto que eu queria só tudo. Uma coisa, a coisa, esta coisa: eu somente queria era - ficar sendo! (Guimarães Rosa)

Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. (Guimarães Rosa)

Felicidade se acha é em horinhas de descuido (Guimarães Rosa)


Selecionei algumas modas de viola de músicos mineiros que ouviamos muito lá em casa (publiquei em 2008 Lembranças de infância: (http://edmeaoliveira.blogspot.com/2008/10/lembranas-da-infncia.html) sobre as reuniões, serestas e violões na casa de meus pais.
Coloco também um vídeo da Adélia Prado e ela fala sobre o poder humanizador da poesia. 


Puro deleite!


Desenredo

Viola Enluarada





Vídeo - Adélia Prado:



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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Be Stupid

 (Fotografei: vitrine da Diesel - 5ª Avenida - NY - Maio/2010)

O humor, a loucura e a estupidez são caminhos para uma vida saudável.






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Sorria, a vida é de graça
(Geraldo E. de Souza www.paracrescer.com.br)

Então você vai querer passar a vida toda
trancado nesse corpo duro,
com essa cara amarrada
e esse ar de que está muito acima
do comum dos mortais,
tentando fazer os outros acreditarem
que está sempre muito ocupado,
que o seu trabalho é importantíssimo,
que não tem nenhum tempo a perder
com coisas banais como viver?

Até quando você vai fingir que não tem
necessidades humanas básicas
como carinho, sexo, amizade, prazer?
Até quando preencherá suas carências
buscando mais dinheiro, sucesso e poder,
como se essas coisas pudessem aliviar
seu indescritível medo de morrer?

É por causa desse medo
que você se esforça tanto
para ser admirado
pelos mesmos outros
que tanto despreza,
como se o aplauso deles
pudesse adiar para sempre a morte certa
e dar um sentido à vida mais sem sentido
que você tem levado
- ou melhor, que você tem sofrido -
em silêncio,
triste,
ressentido e amargurado,
cheio de dores no corpo e na alma,
cheio de desejos sufocados,
de conceitos equivocados,
de padrões de comportamento
completamente fora da realidade

Para que você faz isso com você?
Que crime você cometeu
para se punir tanto,
ao ponto de não se permitir brincar,
de não ser mais capaz de sorrir,
de ter vergonha de se enfeitar,
e sair por aí,
aprontando todas,
lindo, leve, livre e solto
como a Natureza o criou

Será que alguma coisa palpável
nessa vida tão passageira
pode justificar tanto sacrifício interior?

Sinto lhe dizer
que você tem lutado
por meras ilusões,
idéias vagas e irrealistas
de como alguém DEVERIA ser,
tentando desesperadamente se fazer igual
aos ultrapassados modelos que lhe deram,
abrindo mão, talvez sem perceber,
do único modelo que você deve seguir:
- VOCÊ MESMO.


sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Have you ever seen the rain?


A baixa umidade do ar que torna o clima extremamente seco aqui em Brasília chegou ao limite da minha tolerância. Fiquei pensando em algo que poderia fazer para mudar isso e não encontrei alternativa senão escrever sobre a água, invocar aos deuses e quem sabe, aprender a dançar a dança da chuva.

Das gotinhas na pia batismal à dispersão das cinzas em um rio, a água abençoa nossa vida.
Definindo vida como o intervalo entre a primeira inspiração e a última expiração, viver esse “GAP” torna-se mais prazeroso e saudável com ÁGUA.

Água traz serenidade, calma, acolhimento.

Água aduba a terra, abençoa o fruto.

Quando criança adorava colocar latinhas debaixo do telhado para ouvir com mais intensidade o barulho da chuva. Recordo com saudosismo alguns banhos de chuva e brincadeiras na enxurrada com meus irmãos.

Quem ainda não o fez, aconselho a experimentar.
É extremamente prazeroso tomar banho de chuva. Deixe cair a primeira pancada, depois vá pro meio da rua, da praça, seja onde for. Abra os braços, a boca e sinta o abraço e o gosto da chuva.

Parece maluquice, e pensando bem, acho que é mesmo.
Maluquice boa!

Tomar banho de chuva será meu propósito na primavera que começa.

Já escolhi também o tema desse momento prazeroso:
Vamos ouvir? Quem sabe esses sons mágicos trazem chuva pros lados de cá, mas sem exagero...

Credence Clearwater Revival – Have you ever seen the rain

Vanessa da Mata – Ai, Ai, Ai...

Tom Jobim – Água de Beber




domingo, 18 de julho de 2010

A Alma Faminta

(Foto tirada em frente à Loja da Apple em NY )

Tarde tranquila e solzinho anêmico aqui em Brasília. Chego do meu ritual semanal na manhã de domingo: caminhada em ritmo acelerado, já que meu joelho não acompanhou minha vontade de correr. Fazer o quê, então tá!

Enquanto deixo baixar a adrenalina, vejo CNN, GNT, escuto Gal Costa e abro meus emails. Não resisto então em publicar um texto enviado pela minha irmã.


A Alma Faminta

"Não consigo contar as boas pessoas que conheço que, no meu entendimento, seriam até melhores se inclinassem os seus espíritos para o estudo das suas próprias fomes. "

M.F.K. Fischer

“Quando Eva mordeu a maçã, deu-nos o mundo tal como o conhecemos – belo, com defeitos e perigos, cheio de vida. Eva nos deu a varíola e a Somália, a vacina contra a pólio, o trigo e as rosas de Windsor”, conta-nos Barbara Grizzuti Harrison na esclarecedora e provocante coleção de ensaios Out of the garden: Women Writers on the Bible. “A atitude de radical curiosidade de Eva” também nos deu o desejo, o apetite e a fome.
Se não fosse Eva, eu não estaria me perguntando o que preparar para o jantar desta noite. Nem você. Se não fosse Eva, eu não estaria cozinhando projetos criativos que muitas vezes me fervem os miolos até se concretizarem. Mas também não conheceria os prazeres terrenos que amo, nem o intenso desejo por iguarias místicas que só o Espírito pode proporcionar: paz interior, alegria, harmonia.

A maioria de nós come três vezes ao dia (pelo menos), mas quantas vezes a nossa fome é verdadeiramente satisfeita? Um pedaço de bacon, um ovo, um biscoito de queijo me satisfazem mais do que meia grapefruit. Porém, a menos que eu queira ficar do tamanho de uma abóbada dourada, sinto que não posso me conceder isso com freqüência. Muitas de nós constantemente se policiam – quanto a comida, relacionamentos, carreiras – empurrando os desejos bem para o fundo do eu, como se uma forte determinação conseguisse mantê-los só como desejos. Mas estou pouco a pouco chegando à conclusão de que a fome é sagrada. Somos destinadas a ter fome todos os dias, e a satisfazer essa fome todos os dias. Por que mais o primeiro pedido da oração do Senhor seria o pão de cada dia, antes da assistência divina?

As nossas almas conhecem muitos tipos diferentes de fome: física, psíquica, emocional, criativa e espiritual. Mas o grande Criador nos deu os dons de razão, imaginação, curiosidade e discernimento; possuímos a capacidade de distinguir as nossas fomes. Esta manhã, você de fato tem fome de um biscoito no café da manhã, ou de uma pausa? Deseja beijos apaixonados, ou massa? Ou uma boa noite de sono? Então, não fique parada olhando reprises com aquela taça de vinho. Desligue a TV e meta-se nas cobertas e, se não estiver sozinha, convide alguém para ir junto.

“Quando escrevo sobre fome, de fato estou escrevendo sobre o amor e sobre a fome de amor, e sobre o calor e o amor pelo calor” confessou em 1943 a grande gastrônoma e poética escritora de assuntos culinários M.F.Fisher. “E depois, o calor, a riqueza e a bela realidade da fome se satisfazem...e tudo é uma coisa só.”
Não despreze o desejo, filha de Eva. Dentro do seu desejo há uma centelha do Divino. Do Espírito que deseja ser amado. Uma mulher com um apetite vigoroso foi criada para satisfazer esse anseio.
Amor. Fome. Apetite. Desejo. Santidade. Plenitude.
Tudo é Uno.

Extraído do livro:
"Simplicidade e Plenitude – um diário do bem estar e da alegria"
Sarah Ban Breathnach
E você, tem fome de quê?
Música, "Comida" de Titãs




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quarta-feira, 30 de junho de 2010

Trabalhar, rezar e estudar



Ó Senhor me ajude a nunca desistir de ser mulher.
Coloque um espelho no meio do meu caminho entre a lavanderia, o supermercado, o sapateiro.
E que, ao me olhar, eu goste do que vejo.
Não deixe que eu passe uma semana sem usar batom bem vermelho, uma bota bem alta ou um jeans bem justo.
Proteja meus cabelos do vento, os brincos e anéis dos olhares invejosos.
Nunca deixe faltar na minha vida comédias românticas e boas depiladoras, manicures e massagistas.
Se eu tiver vontade de chorar, faça com que eu chore um dilúvio.
E que tenha saído de casa sem pintar o olho.
Para cada dia triste, me dê uma vitrine com sapatos lindos.
Já que eu nunca pedi milagres, faça que minhas celulites sejam ao menos discretinhas...
Me dê saúde, tempo livre, e silêncio...
E que nunca falte perfume na minha bolsa.
Nos engarrafamentos, faça com que eu ligue o rádio e esteja tocando minha música preferida.
Me dê forças para comer mais saladas, mais frutas.
Cegue meus olhos para as sujeiras dos cantos.
Ajude para que eu chegue do trabalho inteira.
Em dias difíceis, me dê persistência para seguir na dieta.
Dê também firmeza para os seios.
Proteja minhas poucas horas de sono e não me julgue mal caso eu não acorde na hora.
Não deixe que minha testa fique tão franzida a ponto de parecer uma saia plissada.
E eu, uma louca estressada.
Faça com que o sol seja meu personal trainer, meu complexo de vitaminas, meu carregador de baterias.
Mas quando eu pedir um diazinho de chuva, não pergunte por quê.
Para cada batata quente no trabalho, me dê um café recém-passado.
Entenda que, quando rezo para cancelarem uma reunião (não é gastar reza à toa, pode ter certeza).
No meio de tudo isso, faça com que eu ache tempo para: virar namorada de novo,  ir ao cinema, jantar fora, dormir abraçadinha.
Ilumine o espelho do banheiro e proteja meus cremes e segredos...
Ajude a não faltar gasolina e não furar o pneu e, por favor, afaste os motoqueiros do meu retrovisor.
Senhor, por pior que seja o meu dia, faça com que ele termine, e não EU!
AMÉM.
(Autor desconhecido)

Lisa Stansfield para aplacar o stress






terça-feira, 4 de maio de 2010

Mentes perigosas


Mentes Perigosas" discorre sobre pessoas frias, manipuladoras, transgressoras de regras sociais, sem consciência e desprovidas de sentimento de compaixão ou culpa. Esses "predadores sociais" com aparência humana estão por aí, misturados conosco, incógnitos, infiltrados em todos os setores sociais.

A leitura desse livro me fez refletir sobre alguns comportamentos de pessoas com as quais fui obrigada a conviver, por força das circunstâncias e por desconhecer que existem.

Infelizmente, a maioria dos psicopatas não cometem crimes que são punidos pela sociedade. Identificar essas pessoas é o primeiro passo prá não cairmos em suas armadilhas inescrupulosas.
São ávidos pelo poder e usam qualquer mecanismo para chegar onde querem, doa a quem doer.





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quinta-feira, 29 de abril de 2010

Como me tornei estúpido


Fico simplesmente indignada com algumas notícias e aí me canso de remar contra a maré. Vem uma vontade de resistir. Mas me contenho. Melhor desistir. Poupar o humor. 

Já vi de tudo pela mundo das notícias, postagens em murais nas redes sociais. Vejo gente bem informada embarcando na onda da insensatez.
Vejo manifestos e protestos ao estilo Dom Quixote no campo da política, e por aí a fila não acaba.
O momento e a oportunidade merecem um livro à altura da minha indignação.
Então, descubro que não estou sozinha e que alguns inconformados escreveram livros. Ah, que alívio!!!
O livro "Como me tornei estúpido" de Martin Page é um deles.

Antoine, o protagonista do romance, é um rapaz como muitos outros.

Um belo dia, anuncia a seus amigos mais queridos um plano perfeito: investir na idiotice como forma de sobrevivência... Antoine está convencido de que só a estupidez lhe permitirá ser plenamente aceito pela sociedade em que vive.



"Ob-la-di ob-la-da life goes on bra." The Beatles "( Álbum Ob-la-di ob-la-da)

"Hoje, aos vinte e cinco, na expectativa de uma vida mais tranquila, Antoine tomou a decisão de cobrir o cérebro com o manto da estupidez".

Enfim, um livro leve, fácil de ler, enganosamente simples, e rico, repleto de minuciosas citações e piadas ao pé do ouvido. Um livro feito sob medida para todos os Antoines que existem por aí.
Enquanto escrevo, escuto "Obla Di Obla Da" com os Beatles
 
Link, música The Beatles, Obla Di:


Até a próxima!
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sexta-feira, 23 de abril de 2010

A idade de ser feliz




A Idade de Ser Feliz
(Geraldo E.Souza)


Existe somente uma idade para a gente ser feliz
somente uma época na vida de cada pessoa
em que é possível sonhar e fazer planos
e ter energia bastante para realizá-los
a despeito de todas as dificuldades e obstáculos

Uma só idade para a gente se encantar com a vida
e viver apaixonadamente
e desfrutar tudo com toda intensidade
sem medo nem culpa de sentir prazer

Fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida
à nossa própria imagem e semelhança
e sorrir e cantar e brincar e dançar
e vestir-se com todas as cores
e entregar-se a todos os amores
experimentando a vida em todos os seus sabores
sem preconceito ou pudor

Tempo de entusiasmo e de coragem
em que todo desafio é mais um convite à luta
que a gente enfrenta com toda a disposição de tentar algo novo,
de novo e de novo, e quantas vezes for preciso

Essa idade, tão fugaz na vida da gente,
chama-se presente,
e tem apenas a duração do instante que passa ...
... doce pássaro do aqui e agora

que quando se dá por ele já partiu para nunca mais!


Passarim - Tom Jobim no vídeo abaixo:



segunda-feira, 12 de abril de 2010

Velha infância



Termino a malhação e enquanto aguardo a moça da lanchonete preparar o meu suco, começo a folhear uma revista. Leio a crônica da Danuza Leão “ Um quintal” que me conduz a uma viagem à minha infância, ao quintal da casa onde morávamos eu, meus pais e meus 4 irmãos.
Goiabeiras, mangueiras, abacateiros e cajueiros fizeram parte dessa história. Vivíamos subindo nos galhos das árvores para apanhar frutas e para deixar meus pais malucos com as travessuras que eu e meus irmãos aprontávamos.

Minha mãe conta que nossas roupas eram todas manchadas e não havia sabão que tirasse as nódoas provocadas pelas frutas.

Alguns casos engraçados e quase trágicos também aconteceram. Num belo dia, eu e minha irmã pulamos o muro casa do vizinho. Quando voltamos pro nosso quintal os tijolos soltos do muro cairam todos em nossas cabeças.
Outra vez, num aniversário da família, a criançada toda subiu na goiabeira e a coitadinha não suportou tanto peso em cima dos seus galhos. Tombou pro lado e caímos todos no chão.
Nossos pais assistiram em pânico a cena quando a goiabeira se quebrou.

Tantas boas lembranças guardadas no baú da minha “velha infância”.

Hoje as crianças não brincam mais de apanhar frutas nas árvores. Algumas não conhecem e trocaram os sabores do quintal por hambúrgueres e milk shakes.
Em Brasília ainda podemos resgatar um pouco deste velho e saudável costume: apanhar frutas no pé.
Quantas árvores frutíferas foram plantadas e que cidade abençoada!

Estou aqui ouvindo “Velha Infância” (Tribalistas) e Redescobrir (Elis Regina) e publico abaixo a crônica de Danuza Leão.

Os links das músicas estão abaixo também.




Um quintal
 
Quando uma pessoa começa a melhorar de vida, pensa logo em comprar uma boa casa. E o que é uma boa casa? É preciso um jardim e uma piscina, imaginam os pais. Eles querem para as crianças uma infância saudável, com confortos que nunca tiveram, mas não pensam no principal: um quintal. Um quintal não precisa ser grande, e o chão deve ser de terra batida. Nele deve haver algumas árvores que não pareçam ter sido plantadas, mas sempre existido. Um abacateiro e uma goiabeira, de goiaba vermelha, são fundamentais. No fundo, um galinheiro tosco, com uma porta quebrada, para que as três ou quatro galinhas possam correr quando alguém quiser pegá-las. Nenhum computador levará uma criança ao deslumbramento que ela terá ao encontrar um ovo e segurá-lo, ainda quentinho. É o mistério da vida nas mãos dela, mais absoluto e mais simples do que qualquer livro de filosofia.
Um dia, a cozinheira avisa que vai matar uma galinha para o molho pardo. Os meninos pedem para ver a cena trágica; a mãe não quer, mas a empregada, acostumada, com o facão na mão, facilita. Se a galinha tiver dentro da barriga aquele monte de ovinhos, aí a lição de morte – e de vida – será ainda mais completa. E mais lições serão aprendidas quando alguém sugerir fazer uma peteca com as penas mais duras e algumas palhas de milho. Mas será que alguém sabe do que estou falando?
Voltando: esse quintal deve ser meio abandonado, mas muito limpo; duas vezes por dia a empregada, cantando bem alto, dá uma varrida. É importante também que haja um tanque para lavar o pé de alguma criança quando ela pisar descalça numa porcaria, e um varal com pregadores de roupa de madeira. Nesse lugar, não vai ter horta nem pomar organizado. Em compensação, é bom que exista do outro lado do muro uma enorme mangueira para que se possa praticar o melhor crime do mundo: roubar as frutas do vizinho. Nos fundos de um quintal, deve haver também uma touceira de bananeiras ou bambus e, claro, um adulto dizendo sempre para tomar cuidado, pois ali pode ter uma cobra. Não há infância que se preze sem medo de cobra. Quando as goiabas começam a crescer, fica todo mundo de olho até a primeira delas estar no ponto para ser arrancada e mordida ali mesmo, sem lavar. E que sensação terrível quando se vê o bicho da goiaba se mexendo. Aí, sem que ninguém precise dizer nada, você começa a aprender que a vida é assim: ou se compra uma goiaba bonita, mas sem gosto, ou se espera com paciência ela amadurecer no pé até desfrutar o supremo prazer de dar aquela dentada – com direito a bicho e tudo.
Mas o tempo voa. De repente você se sente só, abre o caderno de telefones e percebe sua pouca afinidade com os nomes que estão lá, que tem vivido uma vida que não tem nada a ver e começa a procurar um sentido para as coisas. Não encontra resposta, claro, mas um dia está no trânsito, vê um terreno baldio, se lembra daquele quintal no qual não pensa há anos e percebe que essa é a lembrança mais importante e mais feliz de sua vida. E passa a olhar o mundo com a superioridade de quem tem um tesouro guardado dentro do peito, mas ninguém sabe.

Danuza Leão é cronista, autora de vários livros, entre os quais Na Sala com Danuza 2 (ARX) e Quase Tudo (Cia. das Letras)

Redescobrir - Elis Regina


segunda-feira, 5 de abril de 2010

Onqotô, proncovô, doncosô


(Imagens: Carol - minha filha - nas trilhas de Diamantina)

Costumo evitar, sempre que posso, confinamentos do tipo cruzeiros marítimos, resorts e todo tipo de passeio que me impeça de descobrir coisas novas em lugares que tem uma história pra contar.
Pode ser que algum dia, quando me cansar de explorar novos lugares, eu mude de idéia. Mas enquanto tiver pique, quero mesmo é "bater perna por aí".
Investiguei minhas memórias e descobri que tenho uma fantasia de juventude mal-resolvida.
Na verdade, queria ter um jipe e as vezes tenho uma vontade mais sofisticada, quem sabe um carro conversível. Mas a vontade original mesmo era ter um jipe...

As recordações vão chegando e me lembro de quando morava em Sete Lagoas e tinhamos um grupo de turismo ecológico chamado Novo Tempo. Fazíamos trilhas para a Serra do Cipó e ficavamos hospedados na Fazenda Monjolos. Os proprietários eram muito agradáveis, Sr. Osvaldo e D. Rosélia, um casal de médicos aposentados curtindo a natureza. Os lugares eram e ainda são, muito lindos, com trilhas e cahoeiras maravilhosas.

A gente sai de Minas, mas Minas não sai da gente não.
E hoje fiquei assim: cansada dos delírios e discursos pós-modernos e com muita vontade curtir minha mineirice em paz...

Acho que Tonhinho Horta definiu bem nessa música abaixo, o espírito de mineiro aventureiro. Manuel, o jipe do Toninho Horta. Manuel, o audaz.

Manuel, o Audaz
Lô Borges/Toninho Horta)

Se já nem sei o meu nome
Se eu já não sei parar
Viajar é mais, eu vejo mais
A rua, luz, estrada, pó
O jipe amarelou

Manuel, o audaz
Manuel, o audaz
Manuel, o audaz
Vamos lá viajar

E no ar livre, corpo livre
Aprender ou mais tentar

Manuel, o audaz
Manuel, o audaz
Iremos tentar
Vamos aprender, vamos lá

Manuel, o audaz
Vamos lá viajar

E no ar livre, corpo livre
Aprender ou mais tentar

Manuel, o audaz
Manuel, o audaz
Iremos tentar
Vamos aprender, vamos lá

Para ouvir, acesse;